Imagina duas lojas. A primeira tem ROAS 8. Para cada real em anúncio, voltam oito. O dono dorme tranquilo. Só que essa loja faz o mesmo faturamento há oito meses, e quando ele tenta colocar mais verba, o ROAS despenca na hora.

A segunda tem ROAS 3. Metade do que muita gente acha aceitável. E essa loja dobrou de tamanho no mesmo período.

Se ROAS fosse sinônimo de saúde, isso não deveria acontecer. Mas acontece o tempo todo. O problema não é o ROAS estar alto. O problema é o que um ROAS alto normalmente está escondendo. Esse artigo é a versão escrita do vídeo que publiquei no canal sobre esse tema.

Pontos principais
  • ROAS alto pode ser sinal de estagnação: loja colhendo demanda existente sem trazer gente nova
  • Existe uma forma preguiçosa de ter ROAS alto: cortar investimento e parar de prospectar
  • Remarketing sem prospecção é como pescar num aquário. Os peixes acabam
  • Abaixo de 100k por mês, 80% das vendas deveriam vir de clientes novos
  • O número que realmente mede crescimento é o percentual de clientes novos, não o ROAS

O paradoxo

Primeiro, uma distinção importante: ROI e ROAS não são a mesma coisa. ROI é retorno sobre investimento, um indicador financeiro que considera lucro e custo total. ROAS é return on ad spend, o retorno sobre o que você gastou em anúncios. Quando você escuta "meu ROAS está em 6", estamos falando de quanto voltou para cada real investido em tráfego pago, não sobre a saúde financeira do negócio.

Essa distinção importa porque dá pra ter ROAS excelente e negócio quebrando. Tivemos um cliente com ROAS entre 10 e 16, um dos maiores que já acompanhamos. Volume de vendas expressivo. E mesmo assim fechou as portas por problemas financeiros internos. O número era bonito. O negócio não estava saudável.

ROAS é uma razão: receita dividida por investimento. E toda razão pode ser melhorada de dois jeitos: aumentando o de cima ou diminuindo o de baixo. O jeito preguiçoso é diminuir o investimento. Cortar prospecção, ficar só no que é barato, trabalhar só o fundo do funil. O número sobe. O negócio encolhe junto.

Para fixar

Dá pra ter o melhor ROAS da sua vida no mês que você quase não vendeu. ROAS alto e crescimento são coisas diferentes.

Os dois caminhos de crescimento

Não existe uma resposta certa para ROAS. Existe o caminho que faz sentido para o momento da sua marca.

Caminho A Caminho B
Velocidade Rápida, com escala Devagar, controlada
ROAS Menor Maior
Foco Novos clientes, base crescendo Lucro imediato, eficiência
Quando faz sentido Marca em construção, sem dependência imediata de lucro Operação que precisa de retorno agora

Nenhum dos dois está errado. O erro é não entender em qual dos dois você está, e por quê. E o erro maior é perseguir ROAS alto dentro do Caminho A: você vai sufocar o crescimento por conta de um número.

O mecanismo: colher x criar demanda

Existem dois tipos de investimento em mídia: colher demanda que já existe e criar demanda nova.

Colher é remarketing, branded search, base de clientes. É a pessoa que já conhece sua marca, já visitou o site, já estava pronta para comprar. Você está pegando a fruta madura. ROAS naturalmente alto, porque o esforço de convencimento já foi feito antes.

Criar é prospecção, topo de funil, público frio. É apresentar sua marca para quem nunca te viu. ROAS naturalmente mais baixo, porque é mais caro convencer alguém do zero. Leva mais dias, exige mais pontos de contato, mais criativo, mais argumento.

Quando o ROAS geral da conta está muito alto, quase sempre é porque a verba migrou para o lado de colher. E aí mora o problema: colheita não tem reposição. Você está comendo a safra sem plantar a próxima.

A imagem pra fixar

Remarketing sem prospecção é como pescar num aquário. Os primeiros peixes vêm fácil. Depois acaba. E quando a base satura, o ROAS despenca sem aviso, porque você parou de trazer gente nova pro topo do funil.

A conta que prova

Números hipotéticos para deixar claro qual dos dois cenários faz o negócio crescer:

Cenário A Cenário B
Verba R$10 mil R$50 mil
ROAS 8 3
Receita R$80 mil R$150 mil
Receita gerada por cenário R$160k R$120k R$80k R$40k R$80k ROAS 8 · Verba R$10k R$150k ROAS 3 · Verba R$50k
Cenário B tem ROAS menor mas gera quase o dobro de receita. Se a margem aguenta ROAS 3, o Cenário B é o que faz o negócio crescer.

O Cenário B tem o ROAS "pior". Quase ninguém aprova esse número numa reunião. Mas ele gera quase o dobro de receita. Se a sua margem aguenta um ROAS 3 na aquisição, esse é o cenário que faz o negócio crescer.

ROAS alto te faz sentir vencedor enquanto você fica menor.

O teto invisível

Por que não dá simplesmente para escalar a loja do ROAS 8?

Porque ROAS alto normalmente significa que você achou um bolso pequeno de demanda barata e espremeu até o fim. Esse público eficiente é limitado. Tem fim. Quando você tenta colocar mais verba, ela vai para públicos mais caros e o ROAS cai. Não porque você fez algo errado, mas porque a demanda barata acabou.

O retrato clássico da armadilha: "meu ROAS é ótimo, mas toda vez que aumento a verba, tudo piora." Isso não é azar. É o teto do bolso de demanda que você vinha colhendo. Nomear isso é importante, porque o dono sente na pele mas não sabe explicar. Quando você entende o mecanismo, para de tratar como problema de campanha e começa a tratar como problema de estrutura.

O termômetro real

Se ROAS não mede saúde, o que mede?

Um número que quase ninguém acompanha: a porcentagem de clientes novos versus clientes recorrentes. Loja saudável e crescendo traz cliente novo todo mês. Loja na armadilha vende cada vez mais para os mesmos clientes, e o ROAS fica alto justamente por isso: vender para quem já comprou é mais barato.

O sinal de alerta em uma frase: ROAS alto, receita parada e percentual de clientes novos caindo. Esse é o retrato da loja que está se ordenhando.

Para e-commerces que faturam até 100 mil reais por mês, a recomendação é direta: 80% das vendas precisam vir de clientes novos. Não porque recompra seja ruim. É porque nesse estágio o mercado de novos clientes ainda é enorme. Esse não é o momento de otimizar recompra. É o momento de construir base.

A regra prática

Abaixo de 100k por mês: 80% do foco em novos clientes, 20% em recompra. Nesse estágio, o maior ativo que você pode construir é uma base de clientes crescendo.

ROAS mínimo e ROAS ideal

Dois números que toda marca deveria ter claros antes de qualquer decisão de escala.

ROAS mínimo é o ponto de equilíbrio: o ROAS abaixo do qual as contas não fecham. Não é meta, é limite. Ele é calculado a partir da margem de contribuição real do produto, incluindo custo do produto, frete, taxas de plataforma e devoluções. Se você ainda não calculou o seu, leia o artigo sobre como calcular o ROAS mínimo por campanha.

ROAS ideal não é o maior ROAS possível. É o ROAS que permite escalar. O ponto onde você está lucrando o suficiente para aumentar investimento, trazer novos criativos, testar canais. Se você está acima do ROAS ideal, é hora de meter marcha, não de segurar.

E quando você escala, o ROAS vai cair. Isso é normal e esperado. Você está alcançando pessoas novas, que levam mais tempo e mais pontos de contato para comprar. Aceitar esse fato é o que separa quem cresce de quem fica estagnado perseguindo um número bonito.

A pegadinha da atribuição

Tem uma camada que complica ainda mais a leitura do ROAS: parte dele pode ser inflado.

Remarketing com ROAS 15 parece incrível. Mas uma parte dessas vendas ia acontecer de qualquer jeito. A pessoa já estava pronta para comprar, pesquisou o nome da marca no Google, e a plataforma se deu o crédito de uma venda que ela não causou. Isso é crédito inflado.

Isso não invalida o remarketing, mas significa que o ROAS de campanhas de base quente tende a ser superestimado. Mais um motivo para separar a análise de prospecção e remarketing e não misturar os dois num número só.

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A saída em dois passos

A saída não é "baixe seu ROAS". Isso seria irresponsável. A saída é parar de olhar para o número errado e tomar duas decisões práticas.

1
Separe prospecção de remarketing na hora de medir

Não olhe só o ROAS geral da conta. Abra por tipo de campanha e entenda quanto veio de público frio e quanto veio de remarketing. São dois jogos diferentes com dinâmicas diferentes. Misturá-los num número só cria ilusão e impede diagnóstico correto.

Com essa separação você consegue ver: "meu remarketing tem ROAS 10, minha prospecção tem ROAS 4". Agora você sabe onde está o custo real de crescimento e pode tomar decisões sobre cada um no seu lugar.

2
Aceite um ROAS menor na aquisição de cliente novo

Está tudo bem pagar mais para trazer um cliente novo. Se você conhece o LTV da sua marca, a conta fecha olhando para o longo prazo. A primeira compra abre a porta. O lucro vem na recompra, onde o custo de conversão é menor e o ticket muitas vezes é maior.

Se você ainda não sabe qual é o LTV da sua marca, essa é a tarefa de casa antes de qualquer outra decisão de escala. Aquisição é investimento, não despesa.

Conclusão

ROAS alto não é troféu. Às vezes é o aviso de que você parou de crescer e começou a colher o que já tinha.

O número que importa não é quanto volta por real gasto. É quanta gente nova entrou e quanto o negócio ficou maior. Pare de abrir o dia olhando ROAS. Abra olhando quantos clientes novos entraram.

Perguntas frequentes

Não necessariamente. ROAS alto pode indicar que você está concentrando o investimento em remarketing e público aquecido, sem trazer clientes novos. Uma loja que só colhe a demanda existente pode ter ROAS muito alto enquanto o faturamento fica estagnado. O verdadeiro termômetro de crescimento é o percentual de clientes novos, não o ROAS.

Não existe um ROAS ideal único. O que existe é um ROAS mínimo, calculado a partir da margem de contribuição do produto, e um ROAS ideal para escalar, que é o ponto acima do qual você está lucrando o suficiente para aumentar o investimento com segurança. Perseguir um número genérico sem base na sua margem real é otimizar para o número errado.

Porque você está alcançando pessoas novas que ainda não conhecem sua marca. Cada novo conjunto de pessoas precisa ser convencido do zero: visitar o site, conhecer o produto, quebrar objeções, voltar para comprar. Esse processo é mais caro e leva mais dias. É normal e esperado que o ROAS caia ao escalar. O erro é interpretar essa queda como problema quando ela é parte natural do crescimento.

Abaixo de 100k por mês, o foco deve ser aquisição. Nesse estágio o mercado de clientes novos ainda é enorme e focar em recompra antes da hora limita o crescimento. A partir de 100k, com base de clientes já estabelecida, estratégias de LTV e recompra passam a ter impacto proporcional maior.

Sim, e isso é esperado. Remarketing trabalha com quem já conhece a marca e está mais próximo de comprar. Prospecção trabalha com público frio. O erro é misturar os dois no mesmo número e tratar o ROAS geral da conta como indicador único de eficiência. Meça separado: são dois jogos com lógicas diferentes.

Referências

  1. Gabriel Klingelfus, A armadilha do ROAS alto e como ele pode estar travando seu ecommerce, YouTube, 2026
  2. Gabriel Klingelfus, Como calcular o ROAS mínimo por campanha, 2026
  3. Triple Whale, Ecommerce Profitability & ROAS Benchmarks, 2025
  4. Common Thread Collective, The 3-Tier ROAS Framework, 2024